21 de agosto de 2006

Paulo Freire

Terminei de ler "Pedagogia da Autonomia" de Paulo Freire. Além de textos avulsos e todas as referências a ele, é seu terceiro livro que leio (o primeiro foi "Educação como prática da Liberdade", muito antes de entrar na faculdade, e o póstumo "Pedagogia da Indignação : Cartas Pedagógicas").

Alguns trechos que chamaram minha atenção:

Na página 14 o autor pede para o leitor completar o livro, que é direcionado para formar educadores; - observa marca oral de sua escrita.

"só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas." p. 30

--- Isto me lembra de Nietzsche, que dizia: "O pensamento deveria ser ensinado como uma espécie de dança. O pensamento é uma espécie de dança." (portanto, tem passos certos e passos errados, mas isto depende do ritmo e dos parceiros...)

ambiente:
"O professor tem o dever de dar suas aulas, de realizar sua tarefa docente. Para isso, precisa de condições favoráveis, higiênicas, espaciais, estéticas, sem as quais se move menos eficazmente no espaço pedagógico. Às vezes, as condições são de tal maneira perversas que nem se move. O desrespeito a este espaço é uma ofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica."

lembra Sócrates:
"Sei que ignoro e sei que sei"p. 106


"Não junto a minha voz à dos que, falando de paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Minha voz tem outra semântica, tem outra música." p. 113

sobre Inclusão:
"A professora democrática, coerente, competente, que testemunha seu gosto de vida, sua esperança no mundo melhor, atesta sua capacidade de luta, seu respeito às diferenças, sabe cada vez mais o valor que tem para modificação da realizadade, a maneira consistente com que vive sua presença no mundo, de que sua experiência na escola é apenas um momento, mas um momento importante que precisa ser autenticamente vivido." p. 127

"Aceitar e respeitar a diferença é uma dessas virtudes sem o que a escuta não se pode dar. Se discrimino o menino ou menina pobre, a menina ou o menino negro, o menino índio, a menina rica; se discrimino a mulher, a camponesa, a operária, não podsso evidentemente escutá-las e se não as escuto, não posso falar com eles, mas a eles, de cima para baixo. Sobretudo, me proíbo entendê-los. Se me sinto superior ao diferente, não importa quem seja, recuso-me escutá-lo ou escutá-la. O diferente não é o outro a merecer respeito é um isto ou aquilo, destratável ou desprezível." p. 136

sinal do nosso tempo:
"á um sinal dos tempos, entre outros, que me assusta: a insistência com que, em nome da democracia, da liberdade e da eficácia, se vem asfixiando a própria liberdade e, por extensão, a criatividade e o gosto da aventura do espírito. A liberdade de mover-nos, de arriscar-nos vem sendo submetida a uma padronização de fórmulas, de maneiras de ser, em relação às quais somos avaliados. É claro que já não se trata de asfixia truculentamente realizada pelo rei despódico sobre seus súditos, pelo senhor feudal sobre seus vassalos, pelo colonizador sobre os colonizados, pelo dono da fábrica sobre seus operários, pelo Estado autoritário sobre os cidadãos, mas pelo poder invisível da domesticação alienante que alcança eficiência extraordinária no que venho chamando 'burocratização da mente' . Um estado refinado de estranhamento, de 'autodemissão' da mente, do corpo consciente, de conformismo do indivíduo, de acomodação diante de situações consideradas fatalisticamente como imutáveis." p. 128

--- Este trecho acima é excelente. Revelador do perigo da burocracia, quando mal compreendida. Em tempo: a burocracia é necessária, mas deve ser clara, aberta, explícita e humana. Não deve ser usada para "disciplinar", ainda menos dentro da escola! Foucault fala sobre estes mesmos temas - explicando historicamente como a escola (e a prisão e o hospital) foi construída para "controlar os corpos".

gostei desta:
"Quem tem o que dizer tem igualmente o direito e o dever de dizê-lo.
É preciso, porém, que quem tem o que dizer saiba, sem sombra de dúvida, não se o único ou a única a ter o que dizer." p. 131

Sua última fala no livro é a favor da humildade e humanidade (não-arrogância e burocratização) no ato de ajudar a aprender.
Muito bom livro.

Retiro o seguinte trecho de http://www.lesley.edu/journals/jppp/2/review_port.html

"

A esperança e o optimismo na possibilidade da mudança são um passo gigante na construção e formação científica do professor ou da professora que "deve coincidir com sua retidão ética" (p18). Paulo Freire, um Professor e filósofo que através da sua vida não só procurou perceber os problemas educativos da sociedade brasileira e mundial, mas propôs uma prática educativa para os resolver. Esta ensina os professores e as professoras a navegar rotas nos mares da educação orientados por uma bússola que aponta entre outros os seguintes pontos cardeais:

a rigorosidade metódica e a a pesquisa
a ética e estética
a competência profissional,
o respeito pelos saberes do educando e o reconhecimento da identidade cultural,
a rejeição de toda e qualquer forma de discriminação,
a reflexão crítica da prática pedagógica,
a corporeiificação,
o saber dialogar e escutar,
o querer bem aos educandos,
o ter alegria e esperança,
o ter liberdade e autoridade
o ter curiosidade
o ter a consciência do inacabado...

como princípios basilares a uma prática educativa que transforma educadores e educandos e lhes garante o direito a autonomia pessoal na construção duma sociedade democrática que a todos respeita e dignifica.

Nota Final
Não podemos deixar de reconhecer que além da riqueza intelectual de idéias que serão a base de muitos diálogos e reflexões, este livro é escrito tal como outros do mesmo autor, numa linguagem não sexista o que é raro ver-se nas publicações em língua portuguesa. Paulo Freire demonstra a todos os falantes da língua portuguesa, acostumados à maneira masculina de ver o mundo, a qual tem mantido invisível metade da humanidade - os seres femininos, que a língua Portuguesa também nos proporciona as possibilidades do uso de linguagem que respeita a comparticipação visível e dignificante da mulher no mundo actual. Para Paulo Freire não existe unicamente o homem, o professor, o aluno, o pai mas também a mulher, a professora, a aluna, a mãe!"

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