1 de outubro de 2006

Pesquisa sobre Inclusão

SOBRE DEFICIÊNCIA MENTAL – 30 de setembro de 2006


A inteligência é algo natural na espécie humana. Uma herança. Alguns estudiosos acham que 400 mil anos atrás, nem sequer existia seres humanos iguais a nós, mas nossos ancestrais já eram potencialmente inteligentes. Ou seja, poderiam ter feito tudo o que fazemos hoje .

Mas para ser inteligente não basta nascer humano. A inteligência precisa ser cultivada pelo convívio com outras pessoas inteligentes e que saibam algo diferente de nós mesmos. Precisa de ferramentas conceituais, como as linguagens, para se manifestar. Precisa do diálogo.

Inteligência é comunicar, entender, usar, lembrar, imaginar, criar, transformar... O psicólogo Howard Gardner imaginou que existiriam sete tipos diferentes de inteligência, mas todas se resumem a entendimento e criação.

E aqueles que parecem não ser capazes disto são marcados com um estigma: A deficiência mental.

Há duas maneiras de se encarar a deficiência mental. Concordar que é um limite, e portando nenhum esforço externo poderia avançar o entendimento do deficiente mental;ou pensar que é apenas uma dificuldade – Ou seja, o deficiente não será tão rápido e eficiente quanto o chamado “normal”, mas pode evoluir de maneira contínua e não delimitada, tal como qualquer ser humano. Porque a inteligência é uma herança humana e o deficiente, por maior que seja seu problema, não possui um limite pré- estabelecido.

Beyer (2005), a partir dos estudos de Bleidick, lembra o quanto a deficiência é muito mais uma barreira social do que física ou mental: “A deficiência não é um determinado estado médico e também não é um produto obrigatório das instituições, mas muito mais um processo de atribuição de expectativas sociais. Ela está ligada às normas, preconceitos e valores presentes na interação entre os que definem e os que são definidos e é linguística e simbolicamente mediada. O deficiente desvia-se das normas da sociedade, porque ele é o 'outro de uma forma não desejável' (Goffman)”.

Assim como é difícil definir inteligência, é difícil definir deficiência mental, Seu diagnóstico é relativo porque “uma pessoa pode ser considerada deficiente em uma determinada cultura, ao não satisfazer suas expectativas, mas seria considerada normal em outra” (Reunião do grupo AISE).

Do mesmo texto citado retiramos classificação de deficiência quanto a gravidade pela Organização Mundial da Saúde. Sigla OMS – CID. 10.

> Profunda: Incapacidade total de autonomia, inclusive aquelas que vivem num nível vegetativo.

> Agudo Grave: Necessitam que se trabalhe para instaurar alguns hábitos de autonomia, já que há probalidade de adquiri-los. Capacidade primária de comunicação, podem aprender de forma linear, precisam de revisões constantes.

> Moderado: Têm condições de adquirir hábitos de autonomia e podem realizar algumas atitudes elaboradas. Quando adultos podem trabalhar com supervisão.

> Leve: São casos mais favoráveis.

Essa classificação médica por graus de deficiência, feita em 1976, deixava claro que as pessoas não são afetadas da mesma forma, contudo, atualmente, tende-se a não enquadrar previamente a pessoa com Deficiência Mental em uma categoria baseada em generalizações de comportamento esperados para a faixa etária (Referência). O grau de comprometimento da Deficiência Mental irá depender também da história de vida do paciente, inclusive do apoio familiar e das oportunidades recebidas. Na verdade, estamos vivendo num momento de mudança de um paradigma médico para um paradigma pedagógico de análise da deficiência mental.

O educador Reuven Feuerstein, observou algumas crianças que aparentavam ter uma deficiência mental leve, aparentemente sem causas biológicas. Apesar de discípulo de Piaget, Reuven desenvolveu um conceito de “mediação” muito semelhante a Vygotski e concluiu que deficiências de aprendizado podem surgir da privação cultural (falta de contato com mediadores: “resultado de uma falha da parte de um grupo em transmitir ou mediar sua cultura à nova geração”). Para tentar superar esta deficiência provocada inventou a PEI = programa de enriquecimento instrumental.

Ou seja, o atraso de aprendizagem ou a deficiência mental não é uma fatalidade, já que pode ser revertido dentro dos limites de cada pessoa e dos recursos de aprendizagem a que tem acesso.

Este princípio do conceito de resgate pedagógico é localizado no século XIX com o caso do menino-lobo de Aveyron (França) tratado por Jean-Marc Itard. O menino foi descrito por alguns como potencialmente autista, mas o mais provável é que tenha se fechado à comunicação por falta de contato humano na infância. Apesar de ter falhado em ensinar o menino a falar, as pesquisas de Itard foram aproveitadas por seu aluno Edward Seguin no desenvolvimento de metodologias para atender crianças e adultos julgados retardados.

A Associação Americana de Retardo Mental – AAMR propõe um outro modelo mais moderno de classificação de deficiência mental: “Deficiência caracterizada por limitações significativas no funcionamento intelectual da pessoa e no comportamento adaptativo – habilidades práticas, sociais e conceituais – originando-se antes dos dezoito anos de idade.” (AAMR, 2002, p.8). Separando as deficiências em dimensões: I- Habilidades intelectuais; II- Comportamento adaptativo; III- Participação, interação e papéis sociais; IV- Saúde (física e mental) e V- Contexto (ambiente e cultura).

CAUSAS E FATORES DE RISCO

Kirk e Gallagher (1991) perguntam: “O cérebro humano é capaz de entender o cérebro humano?”

Alguns agentes causadores de deficiência mental:

infecção: rubéola, sarampo, etc;

intoxicação;

trauma ou agente físico;

metabolismo ou nutrição;

doença cerebral grave;

má assistência à gestante;

influência pré-natal desconhecida;

anormalidade cromossômica (numéricas ou estruturais), síndrome de Down, síndrome de Martin Bell, síndrome o X Frágil;

alterações genéticas, ex: erros inatos do metabolismo (fenilcetonúria), síndrome de Williams, etc;

retardo decorrente de distúrbio psiquiátrico;

influências ambientais;

distúrbios de gestação: alcoolismo ou tabagismo da mãe, traumas, hipóxia ou anóxia (oxigenação cerebral insuficiente), prematuridade e baixo peso (PIG: Pequeno para idade Gestacional), icterícia grave do recém nascido – kernicterus (incompatibilidade RH/ABO);

desnutrição, desidratação grave, carência de estimulação global;

Entre os distúrbios genéticos a causa mais comum é a Síndrome de Down.

Esta condição, chamada anteriormente de mongolismo, devido a uma semelhança superficial com a raça oriental, foi uma das primeiras a ser associada às anormalidades genéticas (Lejeune, Gautier e Turpin, 1959). As pessoas nesta condição têm 47 cromossomos ao invés dos 46 normais (...) Tal condição leva à deficiência mental moderada ou leve, acrescida de vários problemas de audição, formação do esqueleto e de coração. A presença da síndrome de Down é também relacionada à idade da mãe, mais de 50 por cento das crianças com síndrome de Down nasceram de mães com mais de 35 anos (...) Não se deve concluir, contudo, que a causa exclusiva do cromossomo extra é a mãe. O pai contribui com o cromossomo extra em 20 a 25 por cento dos casos. (Kirk e Gallagher, pág. 129)

Os autores observam que hoje é possível diagnosticar a síndrome de Down antes do nascimento, o que gera um problema moral em se interromper ou continuar com a gravidez.

Algumas das Características Físicas das crianças com síndrome de Down são:

- achatamento da parte de trás da cabeça,

- inclinação das fendas palpebrais,

- pequenas dobras de pele no canto interno dos olhos,

- língua proeminente,

- ponte nasal achatada,

- orelhas ligeiramente menores,

- boca pequena,

- tônus muscular diminuído,

- ligamentos soltos,

- mãos e pés pequenos,

- pele na nuca em excesso.

Segundo o saite ABC Saúde: Embora as pessoas com síndrome de Down tenham características físicas específicas, geralmente elas têm mais semelhanças do que diferenças com a população em geral. As características físicas são importantes para o médico fazer o diagnóstico clínico; porém, a sua presença não tem nenhum outro significado. Nem sempre a criança com síndrome de Down apresenta todas as características; algumas podem ter somente umas poucas, enquanto outras podem mostrar a maioria dos sinais da síndrome.

Aproximadamente cinqüenta por cento de todas as crianças com a síndrome têm uma linha que cruza a palma das mãos (linha simiesca), e há, freqüentemente, um espaço aumentado entre o primeiro e segundo dedos do pé. Freqüentemente estas crianças apresentam mal-formações congênitas maiores.

As principais são as do coração (30-40% em alguns estudos), especialmente canal atrioventricular, e as mal-formações do trato gastrointestinal, como estenose ou atresia do duodeno, imperfuração anal, e doença de Hirschsprung.

Alguns tipos de leucemia e a reação leucemóide têm incidência aumentada na síndrome de Down. Estimativas do risco relativo de leucemia têm variado de 10 a 20 vezes maior do que na população normal; em especial a leucemia megacariocítica aguda ocorre 200 a 400 vezes mais nas pessoas com síndrome de Down do que na população cromossomicamente normal. Reações leucemóides transitórias têm sido relatadas repetidamente no período neonatal.

Entre oitenta e noventa por cento das pessoas com síndrome de Down têm algum tipo de perda auditiva. Pacientes com síndrome de Down desenvolvem as características neuropatológicas da doença de Alzheimer em uma idade muito mais precoce do que indivíduos sem a trissomia do 21.

Cuidados Especiais

A maior dificuldade é o preconceito e o medo, que decorrem, ambos, da desinformação. Quando o indivíduo conhece bem a síndrome de Down, dificilmente rejeita o deficiente.

A principal providência é tratar o estudante com síndrome de down de maneira normal, orientar os outros estudantes para não desenvolverem preconceitos e pesquisar com a família que outro tipo de acompanhamento especializado ele está recebendo.

Atendimento Escolar de estudantes com deficiência mental

A princípio, os estudantes com deficiência mental aprendem da mesma maneira que os outros. Mas exigem mais atenção, maior tempo e explicações mais objetivas e repetitivas, partindo sempre de elementos concretos ao qual o estudante tenha tido acesso anteriormente.

Sugestões:

- Ambientes de aula que favoreçam a aprendizagem, tais como: atelier, cantinhos, oficinas, etc.;

- Tarefas planejadas para desenvolver habilidades adaptativas: sociais, de comunicação (oral, física, visual, escrita, etc), trabalho em equipe, cuidado pessoal e autonomia.

FILMOGRAFIA SUGERIDA

Do Luto à luta

Forrest Gump

Meu nome é Rádio

Nell

Teias da paixão

Um novo despertar

Uma lição de amor (I am Sam)

O Oitavo Dia

A História de Loretta

BIBLIOGRAFIA

Reunião do grupo RS nº 5 - AISE: Assessoria Institucional Sócio Educacional

BBC Brasil – Especial on line:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/cluster/2003/08/s_down.shtml

BEYER, Hugo Otto. Inclusão e Avaliação na Escola: de alunos com necessidades educacionais especiais. Porto Alegre, Editora Meditação, 2005.

DIAS, Cecília – Entrevista = CONSTRUINDO O CAMINHO, UM DESAFIO AOS LIMITES DA SÍNDROME DE DOWN consultada no saite:

http://www.psicopedagogia.com.br/entrevistas/entrevista.asp?entrID=29

KIRK, Samuel A./GALLAGHER, James J.. Educação da Criança Excepcional. (original americano de 1962). São Paulo, Martins Fontes, 2ª edição, 1991.

MACEDO, Lino de. Ensaios Pedagógicos: Como construir uma escola para todos?. Porto Alegre, Artmed, 2005.

Novela “Páginas da Vida” de Manoel Carlos – Veja cena de discriminação em: http://www.youtube.com/watch?v=XCpAmdJwbYY

Revista Inclusão, ano 1, nº 1, outubro 2005. SEE/Mec.

Consultar em: http: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/inclusao.pdf

Revista Época nº 435 - 18/09/2006 -

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG75338-5990-435,00.html

Saite ABC Saúde: http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?393

Minha vida escolar

Depoimento da professora Débora Araújo Seabra de Moura

Associação Síndrome de Down do Rio Grande do Norte

E-mall: seabrademoura@uol.com.br

1. Na infância

Sempre estudei em escola regular. Quando fui para a primeira escola eu tinha somente 2 anos e meio e não me lembro de nada. Passei somente seis meses porque nasceu uma escola que meus pais se encantaram: a Casa Escola!

Eu, Marcelo e Olívia. que também têm Síndrome de Down, estudamos na Casa Escola por muitos anos. Aprendemos muitas coisas e fizemos amizades. Estudar na Casa Escola foi ótimo. Foi bom ter amigos como os colegas de lá porque entenderam a inclusão na escola e na vida. Porque as professoras sabiam isso porque não eram preconceituosas. E ensinaram às crianças. E eles aceitaram nós três para fazermos o jardim e alfabetização e até a quarta série. Foi muito bom para mim aprender mais coisas com os colegas e com as professoras. A gente discutia tudo. Até a síndrome de Down. Algumas professoras são muito queridas e continuam sendo até hoje. E alguns colegas também. São meus amigos de infância. Foi importante para mim conhecer essas pessoas. Até hoje, às vezes nos encontramos para sair para vários cantos.

2. Na adolescência

Quando nós saímos da Casa Escola a nossa Associação Síndrome de Down fez um trabalho de consci-entização no Colégio Imaculada Conceição - CIC, que é um colégio de freiras onde já estudavam pessoas com outras deficiências e foi muito, muito legal. Nós,da Casa Escola fizemos palestras para os meninos que iam ser nossos colegas. Cláudia Werneck lançou livros lá: "Meu Amigo Down em Casa, na Rua e na Escola" Nossos professores da Casa Escola fizeram palestras para os professores do CIC e no outro ano fomos para lá pois queríamos ir para a 5a série. Mas primeiro repetimos a 4a série. Era uma escola muito maior. Nós ficamos cinco anos, até a 8a serie e fizemos muitas amizades. Eu até tinha os dois paqueras, gatinhes da escola. Meus 15 anos foi nesse tempo e me lembro muito. Não me esqueço mais. Nós fizemos inclusão. Muita coisa aconteceu.

Lá no CIC também fiz o estágio na pré-escola com as crianças e uma professora, eu como auxiliar da professora. As crianças gostavam de mim e foram legais comigo. Até me chamavam professora Débora e eu adorei ouvir isso das palavras de cada um deles e me emocionei várias vezes.

3. Buscando o futuro...

Como gostei de trabalhar com crianças resolvi fazer o curso de magistério. Bem, eu comecei a fazer esse curso na Escola Estadual Luís Antônio e no começo foi dificíl porque não eram todas as pessoas que compreendiam a inclusão. Precisei até fazer uma carta para os professores dizendo isso no fim do primeiro ano. Tive muitas dificuldades com professores e com algumas colegas. Tinha gente preconceituosa e gente que tentou me explorar. Foi difícil. Mas em 2003, na 3a série, tudo começou a mudar e foi muito bom para mim com meus colegas da sala. Nesse ano, eu fiz o pré-estagio no NEI - Núcleo Educacional Infantil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Depois, em 2004 fiz o estágio final na Escola Municipal Emília Ramos. Gostei muito desses trabalhos e aprendi com as crianças e professoras que foram legais comigo. Sempre me dou bem com as crianças e adorei trabalhar junto com professoras e as outras estagiárias aprendendo como fazer com os meus alunos na sala de aula.

Em 2004 terminei o curso e me formei. Foi uma luta muito grande, mas consegui.

Depois consegui fazer um estágio na Creche área de Saúde na UNICAMP em Campinas, São Paulo. Eu fui convidada pela Professora Maria Teresa Mantoan e outra pessoa, a professora Magali Amais, que foram maravilhosas comigo. Esse estágio durou de 14 a 18 de fevereiro daquele ano e eu adorei porque aproveitei muito e aprendi mais coisas sobre como trabalhar com alunos pequenos.

Sonho trabalhar com meus alunos na sala de aula. Como auxiliar de professora.

Tenho feito outras atividades como recepcionista de eventos no Programa Ação Dignidade, da nossa Associação e em lojas, nas férias-. Também já desfilei três vezes. Mas gosto mesmo é de trabalhar com crianças Quero fazer esse trabalho o resto da minha vida.

Mas sei que não vai ser fácil. Meus pais me explicam isso. Tem muito problema para a gente trabalhar. Estamos procurando um jeito de resolver isto. E tenho certeza que vai dar certo.

Fonte: INCLUSÃO - Revista da Educação Especial • SEESP/MEC • Out/2005

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