11 de junho de 2008

Reblogado da coluna "Navegar Impreciso" do Estadão - texto de Pedro Doria

Celulares na África e a falta de ninjas
ArtEstado
"Em nenhum continente o uso de telefones celulares é mais sofisticado e inovador do que na África."

Pedro Doria

É bem provável que seja uma surpresa para muitos, mas em nenhum continente o uso de telefones celulares é mais sofisticado e inovador do que na África. Revolucionário, até. Celulares são usados para fazer transferências bancárias, leiloar safras de grãos e até mesmo para localizar elefantes.

É um continente pobre com parca infra-estrutura de telecomunicações. Ou seja, acesso à internet no interior é pouco e sempre muito caro. Daí que os africanos trataram de fazer com que seus celulares preenchessem algumas das funções necessárias do cotidiano digital.

Internet banking num mundo sem rede e no qual a maioria das pessoas não tem conta bancária é, evidentemente, um problema. Em muitas vilinhas do interior do Quênia, da Nigéria ou mesmo da África do Sul, caixas automáticos são raros ou inexistentes. Como em todo o mundo, no entanto, os jovens deixam as aldeias de seus pais para ganharem a vida na cidade grande. Seu problema de transferir dinheiro para a família continua existente.

Em cada vila, portanto, há pessoas que começaram a atuar como intermediários nesse processo. Funciona assim: o filho na cidade compra alguns cartões de celular pré-pago no valor que deseja transferir. Liga para o vizinho intermediário de seus pais e dita os códigos. Ele carrega seu aparelho, desconta uma comissão, e dá aos pais pobres em dinheiro o valor transferido.

A cultura se adapta aos custos e à tecnologia também na ciência. Em boa parte do mundo, animais selvagens que devem ser acompanhados recebem coleiras GPS, para que sejam localizados por satélite. Não na África do Sul. Lá, os elefantes há três anos recebem uma coleira que é, essencialmente, um celular adaptado com chip e bateria de vida longa. Sai bem mais barato. Os animais são localizados, não por satélites, mas pela triangulação do sinal das antenas de recepção celular mais próximas.

A informação sobre safras e preços de grãos no mercado interno e externo, que fazendeiros na Ásia, Europa ou Américas consultam via internet, na África é distribuída em boletins por celular, também.
Tão sofisticada e diferenciada é a maneira como os africanos encararam a telefonia celular que a indústria de telecomunicações, lá, teve de se adaptar e inovar com produtos e planos. Seu instrumento virou uma ferramenta essencial como em nenhuma outra parte. O continente é considerado um dos melhores testes para a implantação de certos recursos.

E, no entanto, nos causa surpresa. O professor David Weinberger, de Harvard, um dos mais antigos pensadores do mundo digital, tem uma explicação: é o Ninja Gap. A falta de ninjas.

Seu raciocínio segue assim: a população da Nigéria e do Japão é mais ou menos do mesmo tamanho. A área dos países, idem. No entanto, o noticiário a respeito do Japão é muito mais farto. Por quê? Alguns responderiam de presto: PIB. O Japão é mais rico. Mas isso só explica em parte – as notícias do mundo não são todas econômicas.

É que nossa familiaridade com o Japão é maior. Temos uma idéia a respeito do Japão, uma série de conceitos e impressões. O Japão é tecnológico. Tem um certo tipo de desenho animado. Muito da cultura popular global vem do Japão. Eles têm uma aura cool que nasce dos livros de ficção e do cinema. No Japão, todo mundo sabe, há ninjas. E ninjas são, evidentemente, sofisticados. Temos uma boa impressão do Japão.

Já a Nigéria, coitada, a Nigéria é só pobre. Ou, assim, segue nossa imagem a respeito do país. Gente pobre, guerras civis, massacres, roupas coloridas. Assim nos parece a África. Buscamos notícias do Japão como não buscamos da África, muito menos no que tange, por exemplo, tecnologia.

O Ninja Gap é, essencialmente, um descrição de nossos mais sutis preconceitos.


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pedro.doria@grupoestado.com.br

fonte: http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=13884

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